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terça-feira, 25 de maio de 2010

Consequências impremeditadas da ação e agência na teoria da estruturação

Para Giddens, a vida cotidiana dos agentes sociais transcorre para os próprios agentes como um fluxo de ação intencional da mesma forma que as conseqüências das ações não se limitam ao esperado em suas intenções, processo esse que produz as conseqüências impremeditadas da ação. Os agentes humanos “sabem” o que fazem, sob alguma maneira plausível de descrição, porém os agentes podem conhecer pouco sobre as conseqüências de suas ações. As conseqüências da ação dos agentes revelam a propriedade da ação que é a agência. A “‘agência’ não se refere às intenções que as pessoas têm ao fazer as coisas, mas à capacidade delas para realizar essas coisas em primeiro lugar” (Giddens, 1984, p. 10). Agência refere-se a eventos dos quais um indivíduo é o perpetrador. A duração da vida cotidiana ocorre num fluxo de ação intencional praticado pelos agentes. Giddens assenta sua perspectiva teórica sobre uma revisão da ontologia social, permeando a idealização da social democracia inglesa dos anos 1980-1990. É importante se ter em mente que Giddens enfatiza importância à perspectiva de que a sociologia embase uma ontologia social e não fique essencialmente preocupada com aspectos epistemológicos, escrevendo que (…) “a concentração nas questões epistemológicas desvia a atenção dos interesses mais ontológicos da teoria social, e é primordialmente nestes que a teoria da estruturação se concentra” (Giddens, 1984, XXI-XXII). O autor evidencia através da teoria da estruturação um novo sentido de organização social. E, esse aspecto o autor traz da idéia de “segurança ontológica” que encontrou em Erik Ericson. Esse recurso garantiria aos atores condições emocionais de trafegar pela instabilidade da vida social moderna: seria importante o ator perceber e ser reconhecido como agente competente e capacitado a mudar a sua vida pelas possibilidades que se lhes apresentarem e por eles construídas estrategicamente.
A concepção de Giddens é ‘realista’ justificando a sua abordagem que privilegia uma reformulação ontológica do ser. Giddens acredita que os agentes, antes de se preocuparem com questões aparentes e mascaradas, estão vivendo a realidade em que eles se encontram. E, é isso efetivamente ao que o autor se propõe ao oferecer sua teoria. O próprio termo estruturação implica o suposto de que a sociedade está em contínuo processo de transformação, isso porque os agentes caracterizam-se por uma cogniscitividade e porque são reflexivos. Assim, as mudanças são melhor observadas quando se analisam os espaços ou períodos de tempo. A transformação social na perspectiva de Giddens é constante, ocorre a todo o momento em que a linguagem e estimulada e pela atuação dos atores humanos. A ciência, por exemplo, não teria maior capacidade de intervenção na realidade do que qualquer ator teria. Neste sentido, a ciência perde seu caráter de libertadora, muito enfatizado por outras correntes do pensamento sociológico, isso porque são os atores que produzem e reproduzem a sociedade em sua vida cotidiana.
A ação dos agentes não é determinada por restrições externas aos agentes. Giddens parece estar enfatizando uma preocupação com a autonomia individual (talvez o termo mais adequado fosse independência individual), no sentido de “os atores são capazes de atuação e ‘dever-se-ia’ deixar os atores atuar” e permitir que eles encontrem a melhor forma de atuação mobilizando estrategicamente os recursos que são oferecidos. Dito de outra maneira, na teoria sintética proposta por Giddens, a importância do ator está acentuada mas sem desconsiderar a estrutura. A perspectiva é a de desacentuar os elementos de coação externa aos indivíduos sem negar que estes existem. Na verdade, a teoria da estruturação seria uma perspectiva que destaca a análise de quais espaços de ação são disponibilizados aos atores, considerando a maneira como a vida é “tocada” e a sociedade é “construída” pelos agentes. Um pressuposto desta teoria é o de que os atores são agentes competentes: são atores que conhecem muito, discursiva e tacitamente, a respeito do ambiente social em que vivem, do seu potencial de manipular sua situação e das suas reais possibilidades em efetivar essa manipulação. Para Giddens, se estimulados, os atores podem dizer muito acerca de suas opiniões sobre o ambiente em que vivem e as suas expectativas e estratégias para almejá-las e sobre por que “reagem” do modo como “reagem”. Mais do que se conformarem com uma situação que se lhes apresenta, os atores podem demonstrar estar reagindo através de estratégias elaboradas a partir das possibilidades por eles encontradas. Essa capacidade de ação implica que os atores estejam reproduzindo as próprias condições que tornaram possível a sua ação. Na reprodução da vida cotidiana, monitorada pelo próprio agente, transformações serão constantemente implementadas e a reprodução será ao mesmo tempo produção. Ou seja, nas práticas sociais estarão contidos e sendo mobilizados os elementos potencializadores (regras e recursos) da permanente constituição (produção e reprodução) da sociedade pela via da ação humana. Giddens propõe uma elaboração da realidade social em que a ação está livre da estrutura ao mesmo tempo em que é potencializada pela estrutura. (Reflexão com base em: GIDDENS, Anthony. A Constituição da Sociedade. Tradução: Álvaro Cabral. 2ª Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Original: 1984).

Anthony Giddens (18 de janeiro de 1938, Londres) é um sociólogo britânico, renomado por sua Teoria da estruturação. Considerado por muitos como o mais importante filósofo social inglês contemporâneo, além de ser ideólogo do novo trabalhismo britânico e teórico pioneiro da Terceira via, tem mais de vinte livros publicados ao longo de duas décadas. Do ponto de vista acadêmico, o seu interesse centra-se em reformular a teoria social e reexaminar a compreensão do desenvolvimento e da modernidade. A obra abarca diversas temáticas, entre as quais a história do pensamento social, a estrutura de classes, elites e poder, nações e nacionalismos, identidade pessoal e social, a família, relações e sexualidade. Foi um dos primeiros autores a trabalhar o conceito de globalização. Mais recentemente tem estado na vanguarda do desenvolvimento de ideias políticas de centro-esquerda, tendo ajudado a popularizar a ideia de Terceira via, com que pretende contribuir para a renovação da social-democracia. Foi Director da London School of Economics and Political Science (LSE) entre 1997 e 2003. Giddens foi assessor do ex-Primeiro-ministro britânico Tony Blair.

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