"Fato Sociológico" é um Web Log desenvolvido para a discussão sociológica, em seus aspectos epistemológicos, teóricos e metodológicos. Criado em 21 de maio de 2010, o projeto visa a constituição de um espaço de exposição, discussão e interlocução de ideias sobre o pensamento social e as tradições sociológicas, aberto ao público e sem fins comerciais. As mensagens aqui postadas visam a informação e a divulgação de questões pertinentes, sem qualquer intenção de denegrir a imagem de instituições, pessoas ou organizações. Entendemos que as imagens compiladas são de domínio público, e acreditamos no bom senso dos detentores de seus direitos autorais em permitir o uso irrestrito dos materiais, por isso nos dispomos a promover o merecido reconhecimento quando solicitado.


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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lançado curso autoinstrucional de ensino da Sociologia na Plataforma Lúmina da UFRGS: o curso tipo MOOC é on-line e gratuito

"Promover a Imaginação Sociológica" é um Curso Tipo MOOC
disponível na Plataforma Lúmina da UFRGS


Uma das questões ainda em aberto na Sociologia aplicada na escola diz respeito ao uso dos autores clássicos e a forma sobre como trabalhá-los com os jovens do ensino médio. Essa não é uma questão de fácil resolução. A teoria sociológica é demasiado densa e abstrata quando sua aplicação deveria ser prática e concreta junto aos estudantes. O professor de Sociologia na escola deve considerar em seu planejamento didático que a maior parte dos seus alunos não será e tão pouco pretende ser sociólogo. Levar muita teoria para a sala de aula e encher o quadro de conceitos desconexos tende a ser uma má receita pedagógica, que pode afastar os estudantes da disciplina e até mesmo criar entre eles uma antipatia com os temas sociológicos.

Por outro lado, o professor de Sociologia na escola, ele sim, precisa ter domínio elementar das abordagens clássicas para praticar sua função pedagógica. É fundamental que o professor da disciplina de Sociologia esteja capacitado a estimular os estudantes a se fazerem as perguntas que os próprios autores clássicos se fizeram sobre a vida em sociedade. Para tanto, é recomendável que o professor conheça o leque de perspectivas e narrativas interpretativas que tornam as Ciências Sociais uma área de conhecimento das mais ricas e estimulantes.

Este curso destina-se à formação inicial e continuada de professores de Sociologia, formados ou não na área das Ciências Sociais, e foi desenvolvido também para atender a todos os interessados em obter conhecimentos elementares de teoria sociológica básica. Mesmo sem a preten­são de abarcar o complexo debate pedagógico acerca dos processos de ensino-aprendizagem na área das Ciências Sociais, o curso visa contribuir com o desenvolvimento de práticas didáticas necessárias para transpor o conhecimento acadêmico abstrato em saberes escolares concretos.

A proposta metodológica do curso consistiu em expor teorias, conceitos e temas de Sociologia Clássica a partir de dois recursos de aprendizagem: (1) charges e cartuns, que proporcionam uma aproximação lúdica ao exercício da aprendizagem; e (2) mapas conceituais, que favorecem uma sistematização articulada do conteúdo da aprendizagem. Destacamos que o curso tem caráter introdutório, buscando indicar algumas pistas sobre como explorar a obra de quatro autores que estão entre os principais fundadores da Sociologia: Marx, Durkheim, Weber e Simmel. Entendemos que retornar aos clássicos sempre é um exercício inesgotável de imaginação sociológica, pois a forma como tais autores interpretaram a realidade social e identificaram nuances da vida em sociedade é fonte primorosa de insights para melhor conhecer e interpretar o mundo atual.

O curso intitulado "Promover a Imaginação Sociológica" é uma iniciativa do Laboratório Virtual e Interativo de Ensino de Ciências Sociais (LAVIECS/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e contou com apoio do Centro de Formação Continuada de Professores (FORPROF/UFRGS) e da Secretaria de Educação a Distância (SEAD/UFRGS). O curso foi desenvolvido pelos professores Daniel Gustavo Mocelin (IFCH/UFRGS) e Leandro Raizer (Faced/UFRGS). Trata-se de um curso autoinstrucional tipo MOOC (Massive Open Online Course, em português Curso Online Aberto e Massivo), com temática voltada ao aprimoramento da prática de ensino de Ciências Sociais na educação básica, especialmente no ensino médio. Esse objeto de ensino virtual adota as ferramentas da recém-criada plataforma LÚMINA-Moodle, onde também estão disponíveis cursos de outras temáticas, todos de acesso aberto, gratuito e irrestrito.

Acesse o MOOC "Promover a Imaginação Sociológica" clicando aqui.


sábado, 20 de novembro de 2010

Wright Mills: "A imaginação sociológica"

De tempos em tempos parece necessário resgatar alguns conceitos históricos desenvolvidos por sociólogos para que não caiam no esquecimento ou para que não tenham seu sentido desviado. Nos anos 1960, Wright Mills, sociólogo da tradição crítica norte-americana, desenvolveu o conceito de "imaginação sociológica", que ajudou muitos de seus alunos na época a se engajarem nos mais diversos movimentos sociais que emergiram naquele contexto agitado, além de questionarem as razões para uma Guerra com o Vietnã.

Wright Mills (1969) descreve o pensamento sociológico como uma prática criativa, que define como “imaginação sociológica”. Essa prática criativa seria a tomada de consciência sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade mais ampla. Trata-se da capacidade de conectar situações da realidade, como os interesses em disputa, percebendo que a sociedade não se apresenta de determinada forma por acaso. Essa conscientização derivada do conhecimento sociológico permite que todos (não apenas os sociólogos por formação) compreendam as ligações existentes entre o ambiente social pessoal imediato e o mundo social impessoal que circunda e que colabora para moldar as pessoas. Resgatando elementos específicos elaborados pelos pensadores sociais mais clássicos, Mills (1969) aponta como um elemento-chave dessa “imaginação sociológica” a capacidade de poder visualizar a sociedade com um certo sentido de distanciamento, em vez de fazê-lo apenas da perspectiva das experiências pessoais e das pré-concepções culturais.


A “imaginação sociológica” é um ato que permite ir além das experiências e observações pessoais para compreender temas públicos de maior amplitude. O divórcio, por exemplo, é um fato pessoal inquestionavelmente difícil para o marido e para a esposa que se separam, bem como para os filhos. Entretanto, o uso da “imaginação sociológica” permite compreender o divórcio não apenas como problema pessoal individual, mas também como uma preocupação social. O aumento da taxa de divórcio redefine uma instituição fundamental – a família. Com a perspectiva da “imaginação sociológica”, Mills (1969) vai propor como possibilidade da sociologia permitir que o indivíduo relacione sua biografia com a realidade histórico-social, permitindo, assim, a conscientização do agente. Desta forma, poder-se-ia argumentar que o conhecimento sociológico pretende implementar o aprendizado tradicional, independentemente da futura profissionalização dos sujeitos. O sentido seria o de oferecer um instrumental analítico-reflexivo, forjado em todos os cidadãos. Cabe salientar que a “imaginação sociologia” não consistiria simplesmente em aumentar o grau de informação das pessoas, mas: "O que precisam, o que sentem precisar, é uma qualidade de espírito que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão, a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro deles mesmos" (MILLS, 1969, p. 11).

A utilização da “imaginação sociológica” se fundamenta na necessidade de conhecer o sentido social e histórico do indivíduo na sociedade e no período no qual sua situação e seu ser se manifestam. Mills também sugere que por meio da “imaginação sociológica” os homens podem perceber o que está acontecendo no mundo, e compreender o que acontece com eles, como minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da história, na sociedade (MILLS, 1969, p. 14).

Como base nessa forma de reflexão, Schaefer (2006) entende que a “imaginação sociológica” é uma ferramenta que proporciona poder, que permite olhar para além de uma compreensão limitada do comportamento humano, ver o mundo e as pessoas de uma forma nova, através de uma “lente” mais potente que o olhar habitual. Pode ser algo tão simples como entender por que alguém com quem temos afinidades prefere música sertaneja ao hip-hop ou entender as diferenças culturais entre as populações do mundo.

MILLS, Wright C. A imaginação sociológica. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. 246p.

SCHAEFER, Richard T. Sociologia. 6ª edição. São Paulo: McGraw-Hill, 2006.