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sábado, 14 de agosto de 2010

Revisão da tradição socialista do pensamento

André Gorz, embora tenha nascido em Viena, Áustria, é conhecido como um sociólogo francês porque assumiu em 1940 esta nacionalidade depois de sua família – de origem judaica – ter sido expulsa da terra natal durante o regime nazista. Conhecedor e adepto, mas critico, da teoria marxista, desde os anos 50, quando se aproximou do existencialismo, Gorz questionava o papel do proletariado como classe revolucionária, considerando que no século XX, nada diferenciaria o proletariado das demais classes. Considerava que o nível de vida dos trabalhadores apresentava substanciais melhoras com o estado de bem estar dos países desenvolvidos, e a diminuição da miséria propiciaria o crescente processo de “aburguesamento das massas”, diminuindo a intenção revolucionária do proletariado.

Em 1980, escreveu Adeus ao proletariado, seu livro mais conhecido e que teve grande repercussão na Europa, mas que mereceu, na França, o repúdio da Confederação Francesa Democrática do Trabalho, na qual Gorz atuava. Na Alemanha, pelo contrário, tal livro foi recebido com grande interesse pelo movimento operário, o que proporcionou a reconciliação de Gorz com este país. No livro, Gorz realiza um tratamento sistemático do questionamento da sociedade centrada no trabalho, a partir da identificação de tendências de redução do emprego industrial nas sociedades capitalistas avançadas, de ampliação de atividades em serviços, de diminuição da jornada de trabalho e de aumento do desemprego e sua manutenção em patamar elevado contrariamente ao “pleno emprego” de décadas anteriores. No contexto dessas mudanças, Gorz afirma que a teoria marxista não teria mais propostas a oferecer à construção de uma sociedade do futuro, o que evidenciaria seu anacronismo. Adeus ao proletariado expõe os mais importantes aspectos da concepção do autor, complementados em Metamorfoses do trabalho, demanda do sentido (1988), os quais estão presentes em todos os livros subseqüentes do autor, inclusive o que trataremos nesta resenha, Misérias do Presente, Riqueza do Possível (1997).

A obra de Gorz pode ser considerada como uma revisão crítica da tradição socialista, mostrando a necessidade de se reconsiderar a utopia e atualizar as ideologias emancipatórias. O autor assume uma combinação da teoria social da ação de cunho marxista com uma visão fenomenológica-existencialista do sujeito, o que se deve a sua ligação com Sartre. A contribuição principal de Gorz consiste na descentralização e na reconsideração da idéia de trabalho como mediação central da interação social e da relação entre natureza e sociedade.

Em Misérias do Presente, Riqueza do Possível, Gorz explora as idéias da importância que o conhecimento (saber) assume na economia contemporânea e do desaparecimento do trabalho assalariado como base da identidade social. O autor retoma a tese de que o fim da centralidade do trabalho assalariado não seria algo a ser lamentado pelos trabalhadores, pois uma nova sociedade estaria surgindo dos escombros da antiga. Gorz entende que as transformações sociais e do trabalho poderiam favorecer uma “libertação da alienação do trabalho” da era fordista e potencializariam condições para o surgimento de atividades “auto-organizadas”, sendo necessário que o trabalho perca definitivamente seu lugar central na vida das pessoas, para que estas busquem novas formas de expressão identitária.

No Capítulo sobre os Últimos avatares do trabalho, Gorz explora essas questões a partir da crise do modelo fordista e da emergência do modelo toyotista e das novas formas de trabalho assalariado (emprego) e as novas formas de “apropriação pelo trabalho” implementadas a partir desta crise. O autor mostra como a sociedade salarial se metamorfoseia inclinando-se para uma sociedade onde todos seriam precários. Ao tratar sobre o Pós- fordismo, faz uma caracterização do modelo pós-fordista, que se constituiu a partir da crise do fordismo, examinando de forma didática as diferenciações entre fordismo e pós-fordismo. O paradigma da organização vê-se substituído por aquele da rede de fluxos inter-conectados (...) No lugar de um sistema hetero-organizado centralmente, tem-se um sistema auto-organizado descentrado. (...) (p. 41). Uma tal concepção abriria ao poder operário espaços sem precedentes, anunciando uma possível liberação, ao mesmo tempo no e do trabalho? Ou significa a sujeição máxima dos trabalhadores (...)? (p.41)

A Materialização do modelo pós-fordista (toyotista) é exemplificada através do caso da Fábrica da Volvo, em Uddevalla, onde os trabalhadores seriam considerados como sujeitos reais da organização do trabalho. Grupos de trabalho, sistema de prêmio para montar um carro inteiro, rotatividade técnica e flexibilidade-funcional: o grupo funciona mesmo sem um dos membros, negociação de folgas entre o grupo, “árbitro” ou chefe da equipe, cargo ocupado alternadamente por cada membro do grupo, sindicato da empresa. Emprego de mão de obra jovem, bem formada, motivada.

Gorz aborda a questão da sujeição a partir de seu exame do toyotismo. Neste modelo, a produção enxuta tinha princípios próprios. Era preciso ultrapassar as relações de produção capitalistas tradicionais. Empregar apenas trabalhadores jovens, sem passado sindical, com contrato de trabalho de total comprometimento, sob ameaça de serem dispensados se o não cumprissem (...) Só empregam operários despojados de sua identidade de classe. (p. 47). Cultura da empresa como refúgio da insegurança. Cooptação do empregado. Toyotismo substitui as relações sociais modernas por pré-modernas. A empresa primeiro compra a pessoa e sua dedicação e só depois devolve sua capacidade de trabalho abstrata (p. 49).

Para Gorz, quanto mais se amplia a autonomia, mais deveria radicalizar-se a recusa da heteronomia (p. 50). A autonomia no trabalho é irrelevante se não for acompanhada de uma autonomia cultural, moral e política (p. 52). No tempo do general intellect (...) todos e todas são ao mesmo tempo trabalhadores potenciais e desempregados em potência (p. 53). Autônomo, soberano, mas limitado e assujeitado: o que produzem não é um resultado objetivado, destacável de sua pessoa, mas a mobilização de recursos próprios a ela mesma: seus talentos (p. 54). Vender toda a sua pessoa, saber vender-se, é a própria essência da prostituição. Gorz explora a idéia de que a superação da subordinação do trabalho da esfera heterônoma para a autônoma constituiria as condições concretas para a conversão do trabalho em uma atividade autônoma. Isso implica a coexistência de dois mundos diferentes – o da heteronomia e o da autonomia – em que um engloba toda a exploração típica do modo de produção capitalista, enquanto o outro constrói a independência do indivíduo. A superação da centralidade do trabalho assalariado torna-se imperativo para que os indivíduos transponham a heteronomia do trabalho e construam um novo tipo de sociedade, calcada no princípio do “tempo livre”. Qual seria o ápice desta nova sociedade? Diante da crise da racionalidade econômica capitalista, seria potencializada ao indivíduo a exposição de sua individualidade através do “tempo livre”?

Comentários com base no texto:
GORZ, André. Misérias do Presente, Riqueza do Possível. Tradução: Ana Montoia. São Paulo: Anna Blume, 2004. 162p. Original de 1997. Introdução (p. 9-15) e Capítulo II – Últimos avatares do trabalho (p. 37-65).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Conhecimento, tecnologia e mudança social

Manuel Castells é um dos principais teóricos da nova realidade social. Na obra de três volumes A Era da Informação (originalmente publicada em 1999), Castells parte do pressuposto de que, no final do século XX, vivemos um intervalo na história caracterizado pela transformação da cultura material pelos mecanismos de um novo paradigma tecnológico que se organiza em torno da tecnologia da informação. Castells identifica o surgimento de uma nova estrutura social, associada a um novo modo de desenvolvimento, por ele denominado Informacionalismo que se apresentaria como produto da reestruturação capitalista observada a partir do final do século XX, possuindo como fonte de produtividade a combinação entre a geração de conhecimento, os processos de informação e a comunicação por símbolos. Neste sentido, o Informacionalismo possibilitaria o surgimento de novas formas históricas de interação, de controle e de transformação social. Para Castells as sociedades informacionais da forma como existe hoje são capitalistas. Ou seja, o autor esboça sua teoria não partindo do suposto de uma ruptura com o modo de produção capitalista, mas como que num processo de evolução do próprio capitalismo, o que caracterizaria uma nova etapa de desenvolvimento capitalista que precede o informacionalismo. O autor enfatiza a diversidade cultural e institucional das sociedades, definindo que da mesma maneira que não se podem homogeneizar peculiaridades locais, não se pode afastar a idéia do processo mais amplo a que todas estão submetidas. A idéia é que as sociedades, mesmo tendo suas diferenças, serão cada vez mais sociedade informacionais. Nas palavras de Manuel Castells, “a nova sociedade emergente desse processo de transformação é capitalista e também informacional, embora apresente variação histórica considerável nos diferentes países, conforme sua história, cultura, instituições e relação específica com o capitalismo global e a tecnologia informacional” (p. 31). Segundo Castells (2000, p. 35), conhecimentos e informação são elementos cruciais em todos os modos de desenvolvimento [agrários, industrial, informacional], visto que o processo produtivo sempre se baseia em algum grau de conhecimento e no processamento da informação. Contudo, o que é específico ao modo informacional de desenvolvimento é a ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos como principal fonte de produtividade. Cada modo de desenvolvimento tem, também, um princípio de desempenho estruturalmente determinado que serve de base para a organização dos processos tecnológicos: o industrialismo é voltado para o crescimento da economia, isto é, para a maximização da produção; o informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico, ou seja, a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento da informação. Embora graus mais altos de conhecimentos geralmente possam resultar em melhores níveis de produção por unidade de insumos, é a busca por conhecimentos e informação que caracteriza a função da produção tecnológica no informacionalismo (Castells, 2000, p. 35). Castells afirma que a tecnologia e as relações técnicas de produção difundem-se por todo o conjunto de relações e estruturas sociais, apesar dessas serem organizadas em paradigmas oriundos das esferas dominantes da sociedade como o processo produtivo ou o complexo militar, penetrando no poder e na experiência e modificando-os. Conclui então que Dessa forma, os modos de desenvolvimento modelam toda a esfera do comportamento social, inclusive a comunicação simbólica. Como o informacionalismo baseia-se na tecnologia de conhecimentos e informação, há uma íntima ligação entre cultura e forças produtivas e entre espírito e matéria, no modo de desenvolvimento informacional. Portanto, devemos esperar o surgimento de novas formas históricas de interação, controle e transformação social. (Castells, 2000, p. 35-36) A tecnologia da informação atingiria todas as esferas da atividade humana, por isso que Castells a analisa para estudar a complexidade da nova economia, sociedade e cultura em formação. Mas, como chama o autor chama a atenção, a opção em explicar as mudanças da sociedade tirando por base a tecnologia da informação não é de forma alguma um determinismo tecnológico. É uma opção metodológica, um ponto de partida escolhido pelo autor. Ou seja, para ele a tecnologia não determina a sociedade “Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.” (CASTELLS, 1999, p.25). Porém, o modo como as sociedades dominam a sua tecnologia, vai moldar o seu próprio modo de vida, que apesar de não determinar a evolução histórica e a transformação social da mesma, as mudanças tecnológicas se tornam o ícone da capacidade de transformação e “modernização” das sociedades contemporâneas.



Comentários com base no texto:
CASTELLS, Manuel. Prólogo: a Rede e o Ser. IN: A Sociedade em Rede. Tradução: Roneide Venâncio Majer. Volume 1 de “A era da informação: economia, sociedade e cultura”. 4º edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eduardo Giannetti fala no I Fórum do Centro de Liderança Pública sobre formação de capital humano e investimento em educação no Brasil

A exposição do conjunto de cinco partes aborda um interessante tema que poderia estar em pauta na agenda nacional com mais vigor e destacada no debate eleitoral recente. Em época de corrida eleitoral, o discurso em geral acaba sempre defendendo maior investimento, mas sem direcionamentos claros, ou seja, acaba sendo o discurso do investimento feito de qualquer jeito, como aumento de salários, proteção dos "direitos adquiridos", saúde, segurança, etc... A tônica da fala de Giannetti passa pela questão da eficiência do gasto público e do investimento. Devemos lamentar que a eficiência de gastos nunca foi no Brasil um discurso eleitoral. Mas temos que lembrar que políticos são políticos e analistas são analistas, feliz ou infelizmente, não sei.









segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Giddens e o Estado de Bem-estar social 2

Giddens aponta algumas características para um sistema de governança alternativo ao WELFARE STATE: Incentivar engajamentos reflexivos, entendido com estabelecimento de movimentos sociais e grupos de auto-ajuda locais; limitação de danos, preocupação básica, seja em relação à cultura local ou meio ambiente; considerar questões de políticas de vida fundamentais para a política emancipatória, exigindo o enfrentamento de questões de estilo de vida e ética (a questão de “como” viver tem importância sumária e específica para os pobres; promover autoconfiança e integridade como os próprios meios de desenvolvimento, referindo-se essencialmente à reconstrução de solidariedades locais; questão ecológica: ricos e pobres têm o mesmo interesse com tal aspecto; melhoria da posição das mulheres (com poder as mulheres podem tomar sua própria decisão em relação à reprodução); saúde pública autônoma (educação a respeito de cuidados pessoais; pessoas com informações básicas podem tomar cuidados comuns com a saúde, evitando e tratando a maioria dos problemas simples; conhecimento médico não deveria ser segredo de um grupo restrito; cuidados básicos de saúde não deveriam ser oferecidos e sim incentivados); direitos para a família e dentro da família (laços familiares oferecem segurança social); reconhecimento de direitos formais e substantivos refletem em obrigações e deveres concomitantes; intervenção de natureza gerativa, global, mas sensível às necessidades locais e protetora de interesses locais.

Segundo Murray, os WELFARE STATE criam subclasses empobrecidas e desmoralizadas. “O objetivo da existência humana não é apenas atingir um determinado padrão de vida, mas sim a aquisição de valores de vida definidos.” “O que há de errado em ser pobre?” Baseia-se em pesquisas realizadas no tocante às relações entre renda e felicidade expressa, procurando demonstrar que depois de um limite bastante baixo, os níveis crescentes de renda não conduzem a graus maiores de felicidade ou de satisfação com a própria vida.

Giddens questiona porque não tentar aproximar as condições de vida de ricos e pobres, mesmo se isso não for feito por meio de transferências de riqueza e de renda? O verdadeiro inimigo da busca da felicidade não é a pobreza nem a riqueza, mas o produtivismo. O consumismo surgiu da orientação produtivista do mundo. E acaba rompendo com o significado moral do Trabalho. O WELFARE STATE está profundamente preso ao produtivismo que está preso a padrões e estilos de vida estabelecidos. A modernização reflexiva que cada vez mais caracteriza a sociedade coloca os indivíduos em uma matriz de decisão diferente da tradicional e cria uma série de tensões inter-relacionadas no âmago das instituições nas sociedades modernas.

Todo interessado em abordar a questão da governança social poderia considerar o seguinte losango analítico: Trabalho – Família – Gerações – Gênero, e as mudanças que ocorrem nestas esferas.

Comentários com base no texto:
GIDDENS, Anthony. Para Além da Esquerda e da Direita. São Paulo: Unesp, 1996. Capítulos 5, 6 e 7 (p. 153-224)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Giddens e o Estado de bem-estar social

O Welfare State (Estado de bem-estar social), também conhecido como Estado-providência, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado-nação como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador do ambiente social, político e econômico do país em parceria com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com a nação em questão. Cabe ao Estado do bem-estar social garantir serviços públicos e proteção à população. Os Estados de bem-estar social desenvolveram-se principalmente na Europa, onde seus princípios foram defendidos pela social-democracia, tendo sido implementado com maior intensidade nos Estados Escandinavos tais como a Suécia, a Dinamarca e a Noruega e a Finlandia, sob a orientação do economista Karl Gunnar Myrdal. Esta forma de organização político-social, que se desenvolveu após a Grande Depressão e se consolidou com a ampliação do conceito de cidadania, com o fim dos governos totalitários da Europa Ocidental, quando houve uma hegemonia dos governos sociais-democratas e, secundariamente, das correntes euro-comunistas, com base na concepção de que existem direitos sociais indissociáveis à existência de qualquer cidadão. Pelos princípios do Estado de bem-estar social, todo o indivíduo teria o direito, desde seu nascimento até sua morte, a um conjunto de bens e serviços que deveriam ter seu fornecimento garantido seja diretamente através do Estado ou indiretamente, mediante seu poder de regulamentação sobre a sociedade civil. Esses direitos incluiriam a educação em todos os níveis, a assistência médica gratuita e universal, o auxílio ao desempregado, a garantia de uma renda mínima, recursos adicionais para a criação dos filhos, pensão.

Inicialmente é importante destacar que Giddens vai trabalhar conceitos relacionados ao Welfare State, seguindo uma linha de pensamento que o próprio autor afirma ser alternativa. Assunto central dos trabalhos de Giddens é aquela que o autor chama Sociedade Pós-tradicional. Giddens parte sua análise do pensamento da esquerda que afirma a proteção do Welfare State essencial para o significado da sociedade civilizada. Os doentes, os velhos, os necessitados, não podem estar abandonados e o Welfare State propiciaria oportunidades destas pessoas de levar uma vida social aceitável pela ação do governo. A noção do socialismo reformista pressupões que o Estado organiza a previdência, intervindo na Economia a fim de tornar a ordem social mais equitativa. Por isso, Giddens diz que o Previdencial parece limitar o Estado. Giddens vai ver então o Estado Moderno sendo definido por essa intervenção que poderia fazer parte de sua forma administrativa. O pauperismo aparece então como elemento fundamental na constituição do Welfare State, sendo circunstância necessária para a instalação da sociedade civil enquanto tal. Giddens destaca que não se deve buscar as origens do Welfare State nas tentativas de reprimir o pauperismo, mas sim no desenvolvimento que Claus Offe chamou de proletarização ativa contra proletarização passiva. A intervenção do Estado foi fundamental para ligar essas duas formas e primordial no processo de transformação do Estado administrativo em Welfare State. Mas essa não é uma questão relacionada com uma compatibilidade funcional entre o Estado e o Capitalismo. Foi a percepção de que a política social era necessária para proteger os indivíduos quando fora do mercado, já que no mundo industrial as fontes tradicionais de apoio sucumbiram. Em menor medida, o Welfare State é resultado dos movimentos dos trabalhadores por melhores condições.

Surgem então como fontes estruturais do Welfare State (1) as instituições previdenciais: trabalho assalariado com um papel central e definidor; (2) o Estado-nação: noção de solidariedade nacional, o Estado sendo visto pelo povo como um “pai”; e (3) a administração de risco: a previdência é um seguro social, uma maneira de lidar com acasos previsíveis. O seguro social aqui não refletia as percepções de injustiça, mas a ascensão da idéia de que a vida social e econômica podia ser humanamente controlada.

Após a guerra o Welfare State se consolidou com base no símbolo do Estado-nação, resolvendo o problema social e assegurando a eficiência econômica. Os novos problemas agora apareciam em três temáticas: trabalho, solidariedade e a administração de risco (vida social e econômica cada vez mais instável, propensa a mudanças aceleradas).

O Welfare State ampliou a equação do trabalho com o emprego assalariado e, posteriormente, com a entrada da mulher no mercado de trabalho. O sistema taylorista assimilado pelo Estado constituiu o Welfare State como um estado nacional integrado no qual o corporativismo ampliava a solidariedade social. Hoje o modelo do trabalhador permanente e protegido passa a ser atacado por outros modos concorrentes de organização do trabalho: aumento do trabalho de tempo parcial, interrupções “voluntárias”de carreira, auto-emprego e trabalho domiciliar. Essa nova situação, fruto do processo de globalização e da mundialização da economia tem, para Giddens, relação com o declínio do Welfare State e o caráter inconstante da ordem global. Mas tal evidência parece encoberto pelos sucessos políticos do neoliberalismo que vê um Welfare State sobrecarregado e o ataca em nome da libertação da empresa competitiva, responsável pelas novas relações sociais. Mas há um ponto paradoxal apontado por Giddens quando os políticos da Nova Direita reivindicam um estado forte na arena internacional.

Uma das teses sobre as pressões ao Welfare State é o argumento de que ele foi enfraquecido por seus próprios sucessos. É quando o clima econômico se torna adverso, quando aqueles que mais se beneficiaram passam a proteger a posição que alcançaram contra grupos em condições mais desfavoráveis. Conseqüências da nova sociedade global: O Welfare State tem sido organizado principalmente em termos de risco externo. As provisões de seguridade social buscam essencialmente dar cobertura a todas aquelas circunstâncias nas quais os indivíduos encontram-se incapazes de alcançar um determinado nível básico de renda e de recursos. Assim, os problemas do Welfare State têm sido vistos em termos fiscais. Para G, as tentativas de redistribuição de riqueza ou renda por meios de medidas fiscais e sistemas previdencias ortodoxos não funcionaram de modo geral. Isso é válido dentro de sistemas previdenciais dos Welfare State de países industrializados e entre as nações ricas e empobrecidas do mundo.

Giddens diz que as condições previdenciais são fortemente afetadas por influências globalizadoras, então não se pode mais falar dos Welfare State do Ocidente como se eles pudessem prosperar independentemente daquilo que acontece no resto do mundo. Dentro destes países veríamos também um crescente afastamento das áreas de privilégio em relação aos grupos de subclasses empobrecidos e criminalizados.

Qual seria então um desenvolvimento alternativo?

Não seria o socialismo enquanto economias centralmente controladas que optariam por não tomar parte na ordem capitalista global; como ocorreu no mundo industrializado,... tal solução, diz Giddens, comprovadamente apenas piorou a situação que supostamente deveria corrigir.

Comentários com base no texto:
GIDDENS, Anthony. Para Além da Esquerda e da Direita. São Paulo: Unesp, 1996. Capítulos 5, 6 e 7 (p. 153-224)

domingo, 23 de maio de 2010

A "destruição criadora": Joseph Schumpeter e a dinâmica do capitalismo

Joseph Alois Schumpeter nasceu no território do extinto Império Austro-Húngaro (atual República Checa), em 1883, no mesmo ano da morte de Karl Marx e do nascimento de John Maynard Keynes. Começou a lecionar antropologia em 1909 na Universidade de Czernovitz (hoje na Ucrânia) e, três anos mais tarde 1911, na Universidade de Graz, onde permaneceu até a Primeira Guerra Mundial. Em março de 1919 assumiu o posto de Ministro das Finanças da República Austríaca, permanecendo por poucos meses nesta função. Em seguida, assumiu a presidência de um banco privado, o Bidermann Bank de Viena, que faliu em 1924. A experiência custou a Schumpeter toda a sua fortuna pessoal e deixou-o endividado por alguns anos. Depois desta passagem desastrosa pela administração pública e pelo setor privado, decidiu voltar a lecionar, desta vez na Universidade de Bonn, Alemanha, de 1925 a 1932. Com a ascensão do Nazismo, teve que deixar a Europa, e assim sendo, viajou pelos Estados Unidos e pelo Japão, mudando-se, em 1932, para Cambridge (Massachusetts, EUA), onde assumiu uma posição docente na Universidade de Harvard, onde morreu em 08 de janeiro de 1950.

De acordo com Schumpeter, a economia industrial evolui por meio da "destruição criadora". Esse fenômeno econômico ocorre quando um conjunto de novas tecnologias encontra aplicação produtiva e as tecnologias tradicionais são "destruídas", isto é, deixam de criar produtos capazes de competir no mercado e acabam sendo abandonadas. Na fase inicial ascendente de um ciclo econômico, as novas tecnologias distinguem os empresários inovadores dos que continuam utilizando as tecnologias tradicionais. Os inovadores são "premiados" com elevadas taxas de lucros e erguem verdadeiros impérios empresariais. Na fase de estabilização, os lucros caem para patamares menores, pois a maior parte das empresas adotou o novo conjunto de tecnologias e a competição tornou-se mais acirrada. Finalmente, a fase descendente caracteriza-se por um excesso de oferta em relação à demanda. As tecnologias que inauguraram o ciclo tornaram-se, a essa altura, tradicionais. A queda acentuada dos lucros prenuncia mais uma ruptura na base técnica, que deflagrará novo ciclo. A fase inicial de cada onda de inovação é a época de ouro dos empreendedores. Adaptando pioneiramente as novidades tecnológicas à produção, empreendedores ousados conquistam vastos mercados. Quase do nada, surgem empresas de grande porte, que se tornam símbolos do seu tempo. Enquanto isso, grandes empresas baseadas em padrões tecnológicos superados entram em crise e acabam se reformulando de alto a baixo ou simplesmente desaparecem. É na fase inicial que ocorre a "destruição criadora". Quando a onda de inovação atinge a fase de estabilização, as novidades tecnológicas consistem em aperfeiçoamentos do padrão tecnológico estabelecido. Essa é a época de ouro das grandes empresas, que dominam mercados já plenamente configurados. Os pequenos empreendedores, que não dispõem de recursos financeiros vultosos, são incapazes de concorrer com as grandes empresas. Freqüentemente, seus empreendimentos e suas inovações são incorporados pelas empresas dominantes. Outras vezes, tecnologias melhores são rejeitadas, pois um padrão menos eficiente adquiriu aceitação geral. Na fase descendente da onda de inovação, os mercados estão saturados. A economia registra superprodução. Inúmeras empresas revelam-se incapazes de sustentar a concorrência, cada vez mais feroz, e são incorporadas por conglomerados mais poderosos. Essa é a época de ouro da centralização de capitais. Quando, finalmente, uma nova onda se inicia, surgem mercadorias revolucionárias. Sob o impacto da "destruição criadora", a superprodução é eliminada pois os consumidores dirigem-se, ansiosamente, para os novos produtos disponíveis. Assim, o ciclo recomeça, em novas bases tecnológicas. O trabalho de Joseph Schumpeter influenciou bastante as teorias da inovação. Seu argumento é de que o desenvolvimento econômico é conduzido pela inovação por meio de um processo dinâmico em que as novas tecnologias substituem as antigas, um processo por ele denominado "destruição criadora". Segundo Schumpeter, inovações "radicais" engendram rupturas mais intensas, enquanto inovações "incrementais" dão continuidade ao processo de mudança. Schumpeter (1934) propôs uma lista de cinco tipos de inovação: introdução de novos produtos, introdução de novos métodos de produção, abertura de novos mercados, desenvolvimento de novas fontes provedoras de matérias-primas e outros insumos, e criação de novas estruturas de mercado em uma indústria.

sábado, 22 de maio de 2010

Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844: a gênese filosófica do pensamento marxiano

Os textos que compõem o chamado "Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844" compõe o pensamento do jovem Karl Marx, então com 26 anos, em seu cunho filosófico e político e que forma uma coleção de apontamentos pessoais. Nele, o autor expõe suas primeiras “visões” sobre a Economia Política num sentido crítico, articulando-as a sua concepção filosófica. O texto indica uma forte influência de Hegel e de Feuerbach. O principal conceito desenvolvido por Marx nesse conjunto de textos e fragmentos é o de “alienação”: as diversas separações (alienar = separar) que os homens sofrem da condição humana plena. Nessa obra, as mais variadas formas de alienação examinadas podem ser reunidas sobre um denominador comum, no corpo da prática social, através do conceito de trabalho alienado. “Tal como na religião, a atividade espontânea da fantasia do cérebro e do coração humanos reage independentemente como uma atividade alheia de deuses ou de demônios sobre o indivíduo, assim, também a atividade do trabalhador não é sua própria atividade espontânea. É atividade de outrem e uma perda de sua própria espontaneidade” (MARX, 1975, p.93). Esse encontro de Marx com a Economia Política é ainda um encontro da filosofia com a Economia Política. Não importa qual filosofia, se aquela filosofia edificada por Marx através de todas as suas experiências prático-teóricas ou outra qualquer. É a filosofia que resolve a contradição da Economia Política, pensando-a, e através dela, pensando toda a Economia Política, todas as categorias, a partir de um conceito chave: trabalho alienado. A realização do trabalho permitiu intensa reflexão sobre dois dos mais importantes textos de Marx. Constatou-se que a obra de Marx (suas preocupações, temáticas, problemas de pesquisa) sofreu grande influencia de aspectos que o autor traz desde sua formação filosófica e também de aspectos que surgiram no decorrer de sua vida política e de comentarista e estudioso da economia. Esses aspectos acumulados ao longo da vida de Marx viriam a articular e subsidiar muitos dos conceitos elaborados em O Capital. Nesse sentido, verificamos que os MEF constituem um projeto em que K. Marx concilia a concepção filosófica e a concepção econômica. No momento em que escreveu esse manuscrito, Marx é um filósofo e jornalista que recentemente entrou em contato com a Economia Política pela qual demonstra-se interessado, criando o conceito de trabalho alienado. A síntese de seu trabalho nos manuscritos compõe parte da elaboração teórica presente em O Capital.