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domingo, 25 de julho de 2010

Thompson: Tempo, ética social e dominação

Alguns autores relacionam o nascimento das fábricas com a necessidade da instauração de uma nova ética. Thompson (1998) realiza uma revisão historiográfica tratando sobre as mudanças importantes na percepção do tempo que ocorrerem com a introdução do relógio e da eletricidade na vida cotidiana da sociedade ocidental. A partir do contraste que se estabelece entre o “tempo da natureza” e o “tempo do relógio”, no processo de formação da sociedade capitalista européia e declínio do sistema feudal, o autor identifica mudanças nos sentidos, nos hábitos, no conhecimento, no trabalho e na economia. Para Thompson, as mudanças na noção de tempo provocaram mudanças na organização e na orientação social. A noção de tempo adota novo valor, adotado desde as Igrejas até as fábricas, toda a organização social passa a ser controlada pelo tempo e toda a ação social converte-se em “tempo é dinheiro”. Seria como se os indivíduos tivessem um “relógio moral interno”, um valor internalizado fundamentado na concepção do tempo, por isso situado dentre de uma ética social que se difunde nas fábricas, escolas, na vida das pessoas: formaram-se novos hábitos de trabalho e impôs-se uma nova disciplina de tempo.

“A primeira geração de trabalhadores nas fábricas aprendeu com seus mestres a importância do tempo; a segunda geração formou os seus comitês em prol de menos tempo de trabalho no movimento pela jornada de dez horas; a terceira geração fez greve pelas horas extras ou pelo pagamento de um percentual adicional (1,5%) pelas horas trabalhadas fora da hora do expediente. Eles tinham aceito as categorias de seus empregadores e aprendido a revidar os golpes dentro desses preceitos. Haviam aprendido muito bem a sua lição, a de que tempo é dinheiro” (Thompson, 1998: p. 294).

Trata-se de abordar a questão da dominação social desde a perspectiva de como os atores sociais passam a internalizar fenômenos correlatos ao avanço do capitalismo e como essa internalização passa a orientar o sentido de suas ações.

Comentários com base no texto:
THOMPSON, Edward Palmer. Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. IN: Costumes em comum. São Paulo: Companhia das letras, 1998. Capítulo 6. Texto original de 1979.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Espírito, Eu e sociedade: George Herbert Mead

Situando o pensamento de GH Mead: Tradição sociológica americana: caráter empírico, censo de 1790. Tradição européia: evolucionismo, utilitarismo, economia política, teorias sintéticas, critica da razão, romantismo, idealismo. Pragmatismo: realidade não existe fora do mundo real: indução a partir dos fatos observados. Interacionismo simbólico: os atores se relacionam com o mundo, a interação é mediada pela linguagem, comunicação, símbolos. A sociologia estuda a ação e a interação. Influência da filosofia alemã: nove mil americanos estudaram na Alemanha entre 1815 e 1915. Psicosociologia ou Psicologia social.

A obra de Mead ora discutida está organizada em três grandes pontos: Mente, Self e Sociedade. Esta resenha prioriza a discussão da Parte III da obra, em que se expôs a concepção do autor sobre o “indivíduo”, no texto, em espanhol, referida por La Persona, e no original, em inglês, por Self. A discussão do texto de Mead precisa ser contextualizada. George Herbert Mead é um dos principais clássicos da psicologia social, e seu destaque na sociologia está ligado à Escola de Chicago como um dos fundadores do Interacionismo Simbólico. Destaca-se, ainda, a tradição sociológica americana e o pragmatismo. A idéia básica a se considerar é que para Mead, a sociologia estuda a consciência, a ação e a interação. Em Mente, Self e Sociedade, Mead descreve como a mente e o self individuais se originam no processo social. A idéia do autor é que o indivíduo se origina e só pode se originar a partir do social, sendo o social que o constitui, mesmo que o indivíduo internalizando o social possa modificar o social. Mead realiza uma “descrição densa” da experiência individual no social e dos processos de sociabilidade que permite ao indivíduo emergir. O modelo de Mead da sociedade é um modelo orgânico em que os indivíduos estão relacionados ao processo social no mesmo sentido que as peças corporais são relacionadas aos corpos. Assim, para Mead, a psicologia individual seria inteligível somente nos termos de processos sociais. Mead parte do condutivismo, mas critica linhas desta corrente dando prioridade à sociedade nas suas análises. Para o condutivismo mais tradicional de Watson, importaria apenas a análise da conduta observável e os estímulos que provocam esta conduta. Mead dava importância à conduta observável, mas também reconhecia que existiam aspectos “encobertos” na conduta que emanam do social. Assim, Mead contrasta sua teoria social do self com as teorias individualistas do self. O desenvolvimento do self (mente) e a consciência do self (self, persona, indivíduo social) ocorrem dentro do campo da experiência e são, primariamente, sociais. O self só pode ser desenvolvido plenamente quando as pessoas tornam-se membros de uma comunidade e agem segundo as atitudes comuns desta comunidade. O self não está no nascimento, mas emerge do processo da experiência e atividade social, isto é, torna-se indivíduo em conseqüência de suas relações a esse processo e ao todo e a outros indivíduos dentro desse processo – isto é, subentende “ser um objeto” deste social. O self é um processo reflexivo, no sentido de que o self é a capacidade de considerar-se como objeto. Para Mead, é a reflexividade do self que “o distingue de outros objetos e do corpo”. A atividade reflexiva inicia pela capacidade do ator de se colocar no lugar do outro. Seria mediante essa reflexão que o processo social seria internalizado na experiência dos indivíduos, e, ao adotar a atitude do outro, o indivíduo estria conscientemente capacitado para se adaptar a esse processo e para modificar tal processo em qualquer ato social dado. Assim, o indivíduo não se avalia a partir da sua perspectiva e, sim, colocando-se na perspectiva de outros indivíduos ou do ponto de vista do grupo social. Neste sentido, poder-se-ia entender que a teorização de Mead representa os indivíduos como atores conformados ao grupo de pertença. Essa idéia reforça sua perspectiva de anterioridade do social sobre o individual, o que lhe aproxima, de certa maneira, da teoria de Durkheim. Entretanto, a abordagem é distinta, pois enquanto Durkheim relegaria toda a sua atenção sobre o que é social e as coisas propriamente internalizáveis, Mead está interessado no processo de internalização, em como o social é internalizável. Neste sentido, entende-se que Mead está interessado nas implicações da ordem social sobre a produção da sociabilidade e interação. Nesta obra analisada, encontra-se uma explicação para a constituição e manutenção de identidades sociais, entendendo como estas conferem ao self um ambiente estável e familiar. A concepção de Mead também é uma explanação de como esse processo constrói e mantém a realidade social. A mente, para Mead, é uma faculdade biológica que permite apreender e manejar símbolos cujos significados são compartilhados por diferentes pessoas. Mediante a mente poder-se-ia estabelecer uma linguagem baseada em significados estabelecidos por uma convenção. O ato de pensar é uma ação mediante a qual os indivíduos tomam consciência de si mesmos e aprendem a conhecer os comportamentos socialmente aceitáveis. Os indivíduos fazem uma série de construções mentais (adaptação) a fim de conhecer os papéis sociais e como cumpri-los em diferentes situações. A concepção social do self que Mead discute, envolve que os selves individuais são os produtos da interação social e não das precondições (lógicas ou biológicas) da interação. Mead especifica que cada self é diferente dos demais. Os selfs compartilham uma estrutura comum, mas cada um recebe uma particular articulação biográfica. As pessoas podem se inserir no grupo não somente se conformando a ele, mas, também, introduzindo mudanças nele, o que permitiria entender um pouco da perspectiva de Mead sobre mudança social. O self constitui-se como uma unidade dual de um “eu” (I) e um “mim” (me). Pelo “eu” o self individua-se, pelo “mim” o self socializa-se. Tais pólos seriam independentes, mas referem-se necessariamente um ao outro. Diferente de outros precursores da psicologia social e do interacionaismo simbólico, Mead concentra sua investigação não tanto numa subjetivação espiritual do self, mas na capacidade do self de introjetar os valores e as regras sociais, sem o que o self não poderia constituir-se. A diferença individual resulta de um processo de significação de si em que há um outro generalizado contra o qual o indivíduo reage e pelo qual o indivíduo se constitui. O eu é uma reação do corpo ao eu generalizado (o ‘mim’). O ‘eu’ é a reação do organismo às atitudes dos outros; o ‘mim’ é a série de atitudes organizadas dos outros, que o eu mesmo adota. As atitudes dos outros constituem o ‘mim’ organizado e o eu reage contra elas como um ‘eu’.

Referência:
MEAD, George. Espíritu, Persona y Sociedad (Mind, Self and Society). México: Paidós, 1993.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Atores sociais

Os atores sociais manifestam interesses sociais, econômicos, políticos, culturais de forma articulada, geralmente expressos através de formas perceptíveis e legítimas. Manifestação coletiva não precisa ser regida por um termo legal, mas pelo comportamento dos que ocupam uma mesma posição na estratificação social, pois obedecem a uma ética consensualmente aceita e/ou partilham um hábitus. Os atores sociais ocupam diferentes posições sociais (estratos), que expressam diferença e desigualdade social. Atitudes são regradas por valores éticos compartilhados, mas que também vivenciam simultaneamente, valores culturais específicos ou identidades.
Identificá-lo numa relação alterativa: imbuí-lo do(s) outro(s) e situá-lo numa realidade social, mediada por relações e concepções de mundo, estilos de vida, atividades, natureza, religião.